quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mais do mesmo

D. Nininha era uma senhora vistosa, na casa dos cinquenta mas com uma aparência cuidada, de cabelos louros, atraente embora de estatura baixa, com porte altivo, por vezes até desafiante de quem para ela olhava. Tinha essa noção e, portanto, exibia com frequência essa altivez.
Conhecera em tempos o João, homem calmo, bonacheirão mas não apático , inteligente mas impaciente para as pequenas mesquinhices e que aparentando ser um bom garfo, tinha uma condição física ainda muito interessante para a sua idade. Era um pouco mais novo que D. Nininha, mas a vida de stress e grande responsabilidade, tinha-lhe dado um aspecto grisalho e um pouco mais velho.
Como sempre, a vida citadina e profissional, não lhes permitia que se reunissem tantas vezes quanto a forte amizade que foram ganhando ao longo do tempo, faria desejável. Mas tomavam café de quando em vez e confidenciavam problemas, alegrias e tristezas e outros factos da vida quotidiana e até profissional.
D. Nininha, alem de altiva, tinha a convicção que as suas palavras e decisões eram sempre as mais acertadas e, apesar de todas as explicações ou argumentos apresentados, raramente se conseguia que concordasse com João, ou com outras pessoas de suas relações, embora dissesse sempre o contrario.
De imaginação muito fértil, D. Nininha tinha sempre uma historia que sustentasse o seu argumento e, mesmo que por vezes fosse de difícil credibilidade, ela batia-se por essa historia até que o interlocutor desistisse e ela conseguisse a sua pequena vitória. Consta, que chegou mesmo a escrever para si própria, para ilustrar a veracidade do que tinha afirmado.
No entanto, D. Nininha apesar desta faceta, facilmente superável, tinha outra que fazia aborrecer fortemente o João e que apesar da amizade que os unia , os fazia muitas vezes entrar em choque. Eram as acusações falsas e as exigências diversas que fazia, como se a amizade não fosse um acto de dar e receber, levando a que por duas ou três vezes, chegassem mesmo a estar de relações cortadas.
João, deixava passar em claro diversas situações, para não melindrar a sua amiga, mas havia casos que entendia que não devia tolerar, pelo grau de exigência, ou de parvoíce que representavam. Lembrava-se de duas vezes em que tinha demonstrado curiosidade em factos que tinham ocorrido e ela tinha respondido:
- Nem que nos deixemos de falar, nunca te direi.
Lembrava-se diversos pedidos que lhe tinha feito, que ela tinha prometido realizar e nunca o fez, utilizando para isso os mais esfarrapados argumentos.
Mais uma vez, tinha acontecido algo semelhante, sem motivo, mas que levava a meditar se seria apenas por motivos de saúde familiares ou se haveria outra intenção naquela atitude. O tempo, oh! o tempo, decorria e, João pela tarde dentro, erguia-se um pouco ( não, não se estava a perder nem ia ter uma loja) e pensava:
- O mesmo, sempre o mesmo e . . . . . . . . . mais do mesmo.!